
Foi muito interessante observar algumas coisas. A primeira e mais importante delas foi perceber o quanto esse hábito me moldou. Em todos esses anos, se eu queria chegar de um lugar a outro e não tinha um carro para isso, ou pegava um emprestado ou usava um taxi. Hoje, deixando o meu carro no mecânico, resolvi que era bem feliz quando ia para qualquer lugar de São Paulo de ônibus e nem sequer pestanejava. Por que não tentar novamente?
Nessa escolha, dei-me conta, por exemplo, que não sabia sequer se podia pagar com dinheiro ou se tinha que conseguir um Bilhete Único. E me achei bem ridícula perguntando isso a um aluno meu ontem. Só me senti menos idiota quando outra aluna motorizada disse que também não sabia... Isso me fez pensar em como limitamos nossas possibilidades e nosso conhecimento com um simples hábito cristalizado.

Levei uma hora e meia hora para chegar ao trabalho. Nesse meio tempo, pude constatar outras coisas. O quanto estou fora de forma, por exemplo, quão pouco eu caminho no meu dia a dia. E o quão pouco eu tenho observado as outras pessoas. Por outro lado, senti-me verdadeiramente revigorada, possivelmente fruto da retomada de outros hábitos que eu tinha quando mais nova. Observar meus arredores, descobrir novos lugares, novos caminhos... como eu adorava fazer isso! Hoje perco cerca de três horas por dia presa dentro de um carro, pensando no meu próprio umbigo, tentando bravamente interagir o menos possível com o mundo externo. Logo agora, que sou bem mais comunicativa do que antigamente...

Esse texto não é uma preleção ao transporte público em São Paulo. Tive, por exemplo, a vantagem de vir fora do horário de pico, em um dia nem frio nem quente e principalmente sem chuva. Mas esse não é o ponto. O ponto é como é importante modificar hábitos, principalmente aqueles tão arraigados que passamos a acreditar que são a nossa única possibilidade! É como não romper com um relacionamento porque não nos vemos com nenhuma outra pessoa no mundo, ou não mudarmos de emprego porque acreditamos que não somos capazes de fazer qualquer outra atividade na vida. Reclamamos da nossa falta de perspectiva enquanto fazemos de tudo para nos enredar em falsas ilusões do que consideramos ser o melhor para nós, geralmente baseados no que "todo mundo" considera bom, e sem perceber, subrepticiamente, isso se torna a única opção para nós. Muitas vezes estamos tão anestesiados que nem sequer percebemos o quanto algo nos incomoda!
A boa notícia é que em pequenos movimentos podemos fazer grandes descobertas. Não é a solução dos problemas, mas é o início, o ponto de mutação para algo realmente grandioso.
Um comentário:
Mas é assim mesmo... dependemos de um carro que quebra, de um imprevisto qualquer que chacoalhe a vida pra desgrudar lo bundón de la cadeirita (mas ainda assim eu dispenso o trenzão hehehehe)
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